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Polêmicas literárias 2020

Tempos atras, eu postei aqui no blog sobre a polêmica envolvendo minha autora preferida, Marion Zimmer Bradley, e a impossibilidade de separar, em muitos casos, o autor do conjunto da sua obra.

Infelizmente, o blog foi hackeado recentemente, e eu perdi alguns posts de destaque, como aquele. Era o post mais lido do Benditos Livros, e eu pretendo reescreve-lo em breve. Enquanto eu vou juntando o material novamente, achei que estava na hora de revisitar o tema, visto que as controvérsias envolvendo autores famosos continuam bem presentes na mídia.

A mais nova polêmica envolve J.K. Rowling. Você já deve ter ouvido a respeito. A autora da série Harry Potter abertamente expressou preconceito para com pessoas transgênero, usou teorias e pesquisas ultrapassadas para justificar tal posicionamento. Acho que ela é bem vocal na sua posição contra mulheres trans, porque se aproveita da falta de informação das pessoas sobre o assunto. Agora sabemos que ela tem grande víes homofóbico também.

Sim, já faz tempo que ela deixa seu posicionamento claro para todos nós, e eu, como a maior parte dos leitores, não tinha ideia de que isso era verdade. Já faz alguns anos que JK escreve livros de mistério usando um pseudônimo, Robert Gailbraith. Você já deve ter visto, certo? De onde será ela tirou esse nome nome, você deve ter se perguntado….

Pois bem, Robert Gailbrath é um médico muito conhecido no meio da psicanálise – é um dos pioneiros na questão da terapia de conversão.

O que significa isso? Terapia de conversão é o que os conservadores empregam na tentativa de buscar reorientação sexual de pessoas homossexuais. Sim, é isso mesmo que você ouviu, a tal “cura gay”. Esse senhor pregava métodos radicais para fazer uma pessoa deixar de ser gay, métodos esses que comumente envolviam , dentre outras tratativas horrendas, terapia de choque e lobotomia.

credito: gettyimages

Depois dessa, você ainda acha que JK Rowling tem salvação? Eu acho difícil.

Ela continua bem vocal na sua posição contra mulheres trans, na minha opinião, porque se aproveita da falta de informação das pessoas sobre identidade, gênero e orientação sexual. E ela sabe bem que se for vocal na sua viés homofóbica, ela vai ser aniquilada.

Agora que a polêmica do pseudônimo foi descoberta, fica evidente que ela é uma pessoa retrógrada. Sabe o que é pior? Retrógrada, FAMOSA E RICA.

Mas o que isso tem a ver com seu trabalho literário?

Não acho que um autor seja capaz de escrever qualquer coisa sem injetar ali suas vivências, crenças e opiniões. Eu li algumas análises mais profundas da obra de Harry Potter, e me espantei com o tanto de preconceito que perpassa a obra sem que eu, leitora, tenha me dado conta. Hoje, eu consigo apontar vários problemas na narrativa. Eu acompanhei , no Youtube, um grupo de jovens adultos que não leram HP quando criança, e eles foram muito perspicazes, sacando algumas insinuações e preconceitos que eu não vi quando li. A nova geração, mais antenada a essas questões, percebeu logo.

Atrapalha a expêriencia literária? Sim. Invalida a leitura? Nem sempre.

Eu resolvi que não vou promover a franquia Harry Potter. Isso significa, que eu não compro produtos relacionados, não faço propaganda, porque é só assim que podemos afetar sua posição na sociedade. Leria de novo? Não sei. Analise suas convicções e seus sentimentos, e veja se vale a pena continuar promovendo os livros ou comprando merchandising da franquia. É esse dinheiro que continua dando a autora o espaço que tem, e quanto menos espaço ela tiver para pregar ódio e preconceito, melhor.

Quer mais polêmica?

O autor de ” Uma mulher na Janela ” Dan Mallory ( usando o pseudônimo AJ Finn), é outro que se meteu em tantas controvérsias que não acredito que eu consiga separar obra do autor. Há uma matéria enorme na New Yorker Magazine ( link AQUI) contando todas as trapaças e mentiras que ele empregou em sua carreira – temos inclusive acusações de plágio que, embora não pudessem ser provadas na justiça, são muito convincentes.

Uma publicação americana chamou o autor “171 literário”, porque parece até historia de ficção – ele inventou diplomas, mentiu sobre sua família, e chegou ao ponto de dizer que tinha câncer no cérebro para conseguir vantagens profissionais. Dizem as fofocas que usou de um pseudônimo porque, se usasse o seu nome verdadeiro, as pessoas com quem trabalhou no mercado editorial impediriam seu progresso. Sua reputação nos bastidores do mercado editorial não é boa. A adaptação do livro ficou parada depois do escândalo vir à tona, e foi novamente adiada por conta da COVID 19.

Dan Mallory disse que tudo o que fez foi por conta do transtorno bipolar. Sim, ele deu essa cartada. Afastou-se dos holofotes desde então, tentando preservar o que resta da sua imagem. A editora que publica seus livros? Acredite se quiser, continuou com o contrato ! Eu tenho certeza que se essa trapaça fosse protagonizada por um mulher ou um pessoa negra, o contrato NUNCA seria mantido.

Como o movimento Me too ainda ativo, casos de escândalos sexuais, abuso e assédio colocam muitos autores em cheque . O autor de “13 reasons why/ Os 13 porquês” Jay Asher, foi acusado de assédio e intimação sexual . Ele não negou as alegações, e pediu desculpas. O autor Sherman Alexie, um dos maiores expoentes em literatura indígena/nativo-americana nos EUA, também foi acusado de assédio por mais uma dezena de mulheres. James Dashner ( da série Maze Runner ) e Warren Ellis ( autor da DC Comics) também foram acusados, e decidiram se desculpar. A maior parte desses homens continuam trabalhando normalmente.

E no Brasil?

Fred Elboni está nessa mesma sinuca aqui no Brasil. Teve as agressões expostas pela ex namorada, e , com esse depoimento, várias mulheres vieram confirmar que também conhecem outras histórias ou que sofreram agressões das mãos do autor. Fred pediu desculpas, mas as histórias envolvendo seu nome não param de aparecer, e pessoas bem famosas corroboraram as alegações das vítimas.

Para um autor que escreve para o universo feminino , isso é imperdoável. A editora Benvirá, depois de certa pressão dos leitores, chegou à conclusão que o mais acertado seria tirar os livros dele de circulação até tudo ser solucionado. A Editora Sextante não se posicionou e parece que o contrato dele está intacto. Inclusive, ele está a todo vapor divulgando seu trabalho nas redes sociais . Claro, entendemos que é necessário que todo os fatos sejam esclarecidos, mas ter responsabilidade social é imperativo, especialmente para casos sensíveis como esse. Desculpar-se pode ser suficiente para muitos leitores, mas para outros é preciso que haja punições claras . Há livrarias que inclusive estão, por conta própria, tirando das prateleiras nomes envolvidos em escândalos do tipo.

E então, será que vale a pena continuar lendo esses autores?

Acho que é uma questão pessoal. A minha maior preocupação com autores polêmicos é o ganho financeiro – eu não me sinto confortável sabendo que eu, comprando e divulgando determinado material, aumento os recursos financeiros desses autores, recursos esses que poderão ser usados para encobrir os crimes e perpetuar comportamentos abusivos e criminosos.

Um exemplo prático : sou fã de sci-fi, e Isaac Azimov é um grande expoente do gênero. Ele é um autor famoso não só pelos seus livros, mas – acredite se quiser – por seu hábito de acostar mulheres nas feiras / exposições geek . Uma pessoa, certa vez, foi até o comitê da feira WordCon reclamar dele (Azimov havia intimidado sexualmente a namorada do rapaz) e, ao invés de ter sua reclamação registrada, acabou sendo expulso do local. Ele comumente fazia uso de sua fama e dinheiro para não ser incomodado, reinando livre, diminuindo mulheres e passando a mão em quem quisesse.

Eu pensei muito a respeito se deveria ler suas obras ou não. Ainda não sei se lerei. O cara é genial? Sim. Mas foi uma literatura construída em cima de constante subjugação alheia, e tudo acobertado de maneira consciente por dezenas de pessoas. Talvez eu só leia o que se tornar domínio público, porque desse modo não há ganho financeiro envolvido. É uma solução plausível na minha cabeça, pelo menos.

É um tema delicado, mas gostaria de saber a opinião de vocês sobre esse assunto. Deixe sua opinião nos comentários !

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