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Marion Zimmer Bradley – mais controvérsias literárias

Olá, queridos leitores !

Esse é o post mais lido desse blog desde que eu criei o Benditos Livros em 2018. Lembro-me de adiar escrevê-lo por meses, porque envolve minha autora favorita e uma narrativa com um twist digno de livros policiais. Desde que o blog foi haqueado ( faz cerca de 2 meses que um desocupado do Leste Asiático hackeou meu blog para vender camisas falsificadas de times de futebol), algumas pessoas comentaram que me conhecem e seguem o meu trabalho por conta desse post.

Então está na hora de revisitá-lo e atualizá-lo.

Minha autora favorita dos tempos de adolescente é Marion Zimmer Bradley. Você deve conhecer o nome, porque ela é a autora da quadrilogia “Brumas de Avalon”, que é um livro incrível sobre a saga arthuriana narrada por um ponto de vista feminino.

credito: Wikipedia

Marion, autora de livros de fantasia e sci-fi famosos, da badalada serie Darkover , defensora dos direitos das mulheres e leitura assídua de pessoas que buscam representatividade feminina na ficção cientifica é uma pessoa controversa que ficou conhecida por apoiar e praticar pedofilia.

Sim, você não ouviu mal. Não, não é fake news.

Tudo veio a tona em 2014, mas a história já era conhecida nos bastidores.
Vamos começar do começo.

Marion era casada com Walter Breen, um autor expert em numismática , que é o estudo de moedas, celulas e medalhas . Ele era considerado a pessoas mais experiente em história numismática dos Estados Unidos nas décadas de 1950-1990, e publicou mais de 40 livros no tema, entre eles, uma enciclopédia que é até hoje usada, chamada “Complete Encyclopedia of U.S. and Colonial Coins.”

crédito: Coinweek.com

Water Breen era também autor de ficcção cientifica, e foi aí que conheceu Marion Zimmer. (In)Felizmente, sua carreira nesse gênero literário não foi para frente como gostaria. Isso porque, em 1961, ele já sofria represárias do fandom por conta de supostas acusações de abuso sexual infantil e seus textos foram abandonados por muitos leitores.

É de registro público que em 1954, ele foi levado ao tribunal pela primeria vez e julgado culpado em um processo criminal de abuso sexual infantil, quando trabalhava em um empresa de moedas chamada New Netherlands Coin Company. No entanto, ele continuou empregado lá até cerca de 1960. Outros casos de abuso surgiram e foram publicamente apresentados, mas muitas pessoas e fãs de sci-fi achavam que as acusações derivavam do estilo de vida hyppie de Breen, que se casou com Bradley em 1964.

Marion também pregava um estilo de vida sem regras, e a experimentação sexual era parte dessa vivência. Honestamente, eu não vejo nada de errado nisso , desde que as partes sejam adultas e expressem seu consentimento. Os dois eram pessoas jovens e bem sucedidas, que dispunham de muita notoriedade no circulo literário, o que atraía muita gente interessada nessa liberdade sexual.

Marion e Breen. Credito:whosdatingwho.com

Atualmente sabemos que Marion se casou com Breen sabendo de suas condenações anteriores e de suas tendências pedófilas com foco homossexual. Marion também tinha essas mesmas tendências. Ela achou em Breen um parceiro que não a limitaria e que não a condenaria por suas preferencias sexuais.

No inicio de sua carreira, sob os pseudônimos de Morgan Ives, Miriam Gardner, John Dexter,e Lee Chapman, Marion escreveu varios trabalhos de ficção especulativa e pulp fiction com temas homossexuais. Um desses livros é “I Am a Lesbian” , publicado em 1962. Algumas pessoas que conviviam no seu círculo , sabendo que Marion se identificava como homossexual, estranharam o relacionamento com Walter Breen. Ele era, inclusive, parte da North American Man Boy Love Association’s (NAMBLA), que podemos traduzir como uma associação que tentava dismistificar o amor entre homens e menores de idade.

credito: Wikiwand.com

Segundo a filha de Marion, Moira Greyland, Bradley e Breen sempre se safaram do ostracismo e de processos judiciais devido ao dinheiro e a influência que tinham. No auge da Revolução Sexual, eram vistos como intelectuais modernos, na vanguarda, e a casa que habitavam era como uma comunidade livre e aberta a todos.

Mas Luana, cadê as provas concretas contra Marion Zimmer Bradley?

Por conta de sua fama, parece que suas ações foram bem acobertadas do público. Marion também era dita como mais contida que Breen nas suas ações. No entanto, dentro de um seleto grupo editorial, era de conhecimento geral que tudo o que acontecia na casa de Marion tinha sua participação e seu aval. Moira, sua filha, só nomeou a mãe como agressora sexual depois de sua morte, porque sabia das implicações que a notícia teria. Sabia que a repercussão seria brutal, e que os amigos próximos da família negariam reconhecer as falhas da autora. Moira , inclusive, foi rechaçada publicamente por muitos.

No entanto, há informações suficientes que nos fazem acreditar e corroborar a história de Moira. Seu irmão Mark Greyland, depois de toda a pressão colocada pela mídia, acabou abrindo o coração e relatando o abuso sexual que sofreu nas mãos de Walter Breen, e apontou a mãe como uma pessoa ao mesmo tempo, “incrivel e terrível“. A entrevista dada por ele, chamada “Secret Keeper No More,” foi retirada do ar porque Mark não aguentou a publicidade. O relato combinado dos dois virou um livro : The Last closet – The dark side of Avalon.

Breen, que foi preso e condenado diversas vezes por crimes de abuso sexual, foi novamente condenado em 1988 por molestar o filho de um autor de ficção cientifica ( não vou citar o nome dele aqui, mas o caso é público e notório, e só procurar ), e a publicidade do caso e do julgamento levou a uma investigação maior, onde outras vítimas foram descobertas. Em 1990, ele foi condenado a 10 anos de prisão, e faleceu na prisão.

Nesse processo de 1990, temos, na fase de investigação policial, o testemunho registrado de Moira Greyland, que chegou a nomear 22 meninos que ela lembrava terem sido molestados pelo padrastro, e alguns também pela mãe.

Foi nesse julgamento de Breen que a participação de Marion nos crimes de Breen começou a ser cogitada de verdade. O depoimento de Marion Zimmer Bradley à Corte deixou muita gente perplexa. Ela confirmou que tinha ciência das preferências sexuais criminosas do marido, e disse que não se importava com o comportamento dele. Eu tive a infelicidade de ler as transcrições dos depoimentos, e a minha decepção foi gigantesca. Infelizmente , os sites que continham essas transcrições não se encontram mais disponíveis, e eu não encontrei outros que tivessem o material online (você encontra as transcrições no livro da Moira mencionado acima ). Os foruns de discussão da época, contudo, ainda mantém alguns trechos e vou linkar um deles no fim desse texto.

Foi aí que ficou “claro” para o público que Marion Zimmer Bradley tinha , pelos menos, ciência dos crimes do marido, e que não reconhecia aqueles atos como crime ou fatos que necessitassem de punição. Aliás, todas as pessoas que viviam na casa deles – parentes e agregados – estavam de maneira ativa ou passiva, envolvidos em crimes de pedofilia e estupro.
E era de público conhecimento em Los Angeles que na casa de Bradley e Green se praticava sexo grupal disfarçado como rituais de ocultismo.
Sabemos, atualmente, que muitas ideias presentes nos livros vinham de experiências vividas na casa deles.

Eu pesquisei e descobri que uma das crianças envolvidas processou Marion e outros moradores da casa por facilitação ao crime de estupro e por não denunciarem a prática do crime. Uma das mulheres, sua secretária, foi apontada como amante de Marion e era complacente com os abusos. Nesse processo judicial, as provas materiais eram poucas, e, claro, muitos dos acusados testemunharam que não tinham conhecimento dos crimes praticados na casa. O depoimento de Marion Zimmer Bradley nesse processo não condiz com a autora inteligente e ativista de direito das mulheres que era, mas foi suficiente para enganar o juri. Declarações do tipo “meu marido sempre disse que era impotente, então não havia perigo”, “aquele menino parecia ser mais velho, não sabia que tinha 10 anos”, ou “nem sabia que crianças podiam sentir prazer” seriam dignas de risada hoje. Eu fiquei com vergonha lendo.


E agora?
Tem como separar o autor da obra?


Sim, mas não do modo como você imagina. Eu deixei de ler ou recomendar livros da Marion Zimmer Bradley. Não acho saudável, porque agora sei que ali naquelas linhas pode haver fatos reais, e que sua fama e notoriedade impediram que as vítimas buscassem justiça. Os livros são para mim, hoje, “incríveis e terríveis”, tal qual Mark colocou em sua entrevista. São frutos de uma mulher instável e violenta, e também de uma autora visionária que nunca deixou de pregar o femininismo em todos os campos.

No entanto, se você me perguntar quem é minha autora favorita, ela continua ocupando o posto . Eu não posso negar sua influência na minha vida, na minha visão de mundo, até na minha religião. E , embora morta, não me sinto à vontade contribuindo financeiramente para esse legado. Alias, nenhum dos filhos dela recebe qualquer valor monetário decorrente da fama da mãe, e acho isso um grande indicador do que aconteceu naquela família. Depois do escândalo ter vindo à tona, por volta de 2014, a editora de Marion nos EUA não imprime mais suas obras, e todo dinheiro recolhido da venda do seu catálogo digital vai para uma ONG voltada a crianças. Muitos autores que coassinaram livros ou antologias com ela também doaram os valores para insituições que lutam contra abuso sexual.

Qual é sua opinião sobre isso? O que você faria se seu autor(a) favorito fosse acusado de crimes graves ?

Alguns links e fontes para pesquisa que valem ser lidos :

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